– Cruzamentos genéticos, explicou Felênia, você acreditaria que
uma vaquinha dessas vale uma fortuna?
Sorri-lhe, um ar de dúvida passeando pelo rosto.
– Não creio que elas dêem uma caneca de leite, ou três arrobas
de carne.
– Ora, seu tonto! Elas não são criadas para isso, são para
encantar o espírito! Enfeite, não percebe? Observe seu filho, está
completamente fascinado!
De fato, Juninho corria pelo pasto, brincando com a minúscula
criação de vacas e cavalos, como se esta fosse uma porção de dóceis
cachorrinhos. Logo um homem muito velho – o caseiro? – aproximou-se do guri.
Trazia às costas um pequeno arreio e depois de conversarem alegremente, foram
separar um dos cavalinhos – um tordilhinho com manchas marrons nas ancas, à
semelhança dos apalooses. O homem encilhou-o; num salto ágil o garoto pôs-se a
cavaleiro no lombo do animalzinho. Felênia tirou-me daquele feliz estado
contemplativo.
– Vamos entrar – disse. – Tenho lá dentro um vinho excelente.
– Alemão? – indaguei, pensando num bom Reno.
– Chileno.
– Ah!
Claro. Só podia ser..., afinal eu estava em companhia de uma
sacerdotisa pré-colombiana. Onde eu estava com a cabeça para imaginar –
heresia! – que ela fosse me servir vinho alemão?
*
Nas paredes da sala havia cerca de onze ou doze quadros, a
maioria de autoria de Felênia, um conjunto de sofás de couro, castanho, uma
mesinha de centro em mármore e, sobre ela, uma escultura de uns 30 centímetros
de um deus feroz, todo adornado com rubis, esmeraldas, opalas, turquesas,
pedras que podiam passar por verdadeiras a um olhar menos atento. Aquele deus
certamente era algum maioral de uma das dinastias perdidas no tempo. Vendo-me
observar a escultura, Felênia disse sucinta:
– Um Mestre... Sei...

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