sexta-feira, 19 de julho de 2013

Camara de Sacrificios-J. Athayde Paula (Parte 4)

– Cruzamentos genéticos, explicou Felênia, você acreditaria que uma vaquinha dessas vale uma fortuna?
Sorri-lhe, um ar de dúvida passeando pelo rosto.
– Não creio que elas dêem uma caneca de leite, ou três arrobas de carne.
– Ora, seu tonto! Elas não são criadas para isso, são para encantar o espírito! Enfeite, não percebe? Observe seu filho, está completamente fascinado!
De fato, Juninho corria pelo pasto, brincando com a minúscula criação de vacas e cavalos, como se esta fosse uma porção de dóceis cachorrinhos. Logo um homem muito velho – o caseiro? – aproximou-se do guri. Trazia às costas um pequeno arreio e depois de conversarem alegremente, foram separar um dos cavalinhos – um tordilhinho com manchas marrons nas ancas, à semelhança dos apalooses. O homem encilhou-o; num salto ágil o garoto pôs-se a cavaleiro no lombo do animalzinho. Felênia tirou-me daquele feliz estado contemplativo.
– Vamos entrar – disse. – Tenho lá dentro um vinho excelente.
– Alemão? – indaguei, pensando num bom Reno.
– Chileno.
– Ah!
Claro. Só podia ser..., afinal eu estava em companhia de uma sacerdotisa pré-colombiana. Onde eu estava com a cabeça para imaginar – heresia! – que ela fosse me servir vinho alemão?
*

Nas paredes da sala havia cerca de onze ou doze quadros, a maioria de autoria de Felênia, um conjunto de sofás de couro, castanho, uma mesinha de centro em mármore e, sobre ela, uma escultura de uns 30 centímetros de um deus feroz, todo adornado com rubis, esmeraldas, opalas, turquesas, pedras que podiam passar por verdadeiras a um olhar menos atento. Aquele deus certamente era algum maioral de uma das dinastias perdidas no tempo. Vendo-me observar a escultura, Felênia disse sucinta:
– Um dos meus Mestres.
– Um Mestre... Sei...

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