Mostrou-me a casa: os quartos, a cozinha, o banheiro. Só não
entramos num cômodo que, em lugar da porta, tinha grossa, indevassável cortina
tecida em fios de ouro e prata. Captando minha curiosidade, Felênia avisou,
peremptória:
– Aqui ninguém, a não ser eu, pode entrar, entende?
– Por quê?
– Porque aqui é câmara de sacrifícios
A coisa ficava difícil de entender. Quem poderia impedir-me de
invadir o local? Repeti em palavras o meu pensamento. Ela, desafiadora:
– Pois então tente.
Resoluto, avancei. A dois metros da cortina, senti bater-me no
rosto uma labareda – não seria, a bem da verdade, uma labareda: era mais um
bafio cáustico com fedor de amônia, breu e ovo podre, uma emanação mefítica que
impregnava as vias respiratórias, causava náuseas. Afastei-me alguns passos e
tudo voltou à normalidade: o ar era fresco, a luminosidade da casa,
estonteante. Como sou um sujeito racional, cheguei à conclusão de que Felênia
estava acionando em meu cérebro algum mecanismo de auto-sugestão. Mas, por via
das dúvidas, abandonei a ideia de invadir o cômodo.
– Vamos tomar o vinho? – sugeri.
De volta à sala, Felênia trouxe-me uma garrafa com vinho pela
metade. Como não tomava álcool, providenciou para si um cálice de guaraná. Ela
serviu-me o vinho num copo de estanho, que coisa mais singular, eu disse pra
mim mesmo. Após virar a primeira dose, alguma coisa aconteceu: minhas pálpebras
caíam sobre os olhos com a violência de meteoritos. Eu lutava bravamente para
manter-me acordado, em vão. Como meu cérebro mantinha-se claro como o gelo em
manhãs de geada, compreendi que estava sendo dopado.
*
Quando recobrei a consciência, estava esparramado no sofá.
Sentei-me, meti a cabeça explodindo de dor – um latejar profundo em nada
comparável à ressaca – entre as mãos e naquele momento ouvi um som lamentoso
espalhando-se pela casa.
Pus-me de pé, cambaleante segui as ondas do lamento e dei-me com
a câmara misteriosa. Um medo irracional por alguns instantes paralisou-me os
membros e, patético, fiquei olhando a rica cortina do cômodo – dali não mais
emanavam os miasmas de horas antes, mas pressentimentos funestos, presságios
terrificantes, agouros lúgubres.
Abri a cortina e entrei. O lugar, iluminado pelo sol vespertino,
tinha nas paredes, acomodadas em prateleiras, esculturas de todos os tamanhos e
cinzeladas nas mais estranhas conformações. Ao centro do quarto via-se um bloco
maciço de mármore, quadrado, com uns dois metros de largura por um de altura –
sobre ele o meu filho, nu, distendido de costas e aparentemente dopado. Junto
ao bloco, sentada em posição de ioga e de frente para o sol, estava Felênia, os
olhos fechados, murmurando aquele mantra soturno, gutural, tétrico. Tinha as
mãos postas em frente ao peito e, entre elas, um punhal – o cabo era feito de
polidas pedras brancas e negras, formando mosaicos, e a lâmina, comprida e
fina, era de sílex.
Tremendo de pânico, peguei o menino nos braços e corri para o
veículo de Felênia – deixando-a naquele estado de transe a entoar sua cantilena
maldita. Acomodei o garoto no banco da frente, a cabeça sobre minhas pernas, profundamente
aliviado ao ouvir seus lamentos sinalizando a recuperação dos sentidos. Então,
após girar a chave na ignição, observei que no peito do Juninho havia um
círculo de tinta quase da tonalidade da pele demarcando o lugar exato do
coração.
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