domingo, 21 de julho de 2013

A Camara de Sacrificios- J. Athayde Paula(Final)

Mostrou-me a casa: os quartos, a cozinha, o banheiro. Só não entramos num cômodo que, em lugar da porta, tinha grossa, indevassável cortina tecida em fios de ouro e prata. Captando minha curiosidade, Felênia avisou, peremptória:
– Aqui ninguém, a não ser eu, pode entrar, entende?
– Por quê?
– Porque aqui é câmara de sacrifícios
A coisa ficava difícil de entender. Quem poderia impedir-me de invadir o local? Repeti em palavras o meu pensamento. Ela, desafiadora:
– Pois então tente.
Resoluto, avancei. A dois metros da cortina, senti bater-me no rosto uma labareda – não seria, a bem da verdade, uma labareda: era mais um bafio cáustico com fedor de amônia, breu e ovo podre, uma emanação mefítica que impregnava as vias respiratórias, causava náuseas. Afastei-me alguns passos e tudo voltou à normalidade: o ar era fresco, a luminosidade da casa, estonteante. Como sou um sujeito racional, cheguei à conclusão de que Felênia estava acionando em meu cérebro algum mecanismo de auto-sugestão. Mas, por via das dúvidas, abandonei a ideia de invadir o cômodo.
– Vamos tomar o vinho? – sugeri.
De volta à sala, Felênia trouxe-me uma garrafa com vinho pela metade. Como não tomava álcool, providenciou para si um cálice de guaraná. Ela serviu-me o vinho num copo de estanho, que coisa mais singular, eu disse pra mim mesmo. Após virar a primeira dose, alguma coisa aconteceu: minhas pálpebras caíam sobre os olhos com a violência de meteoritos. Eu lutava bravamente para manter-me acordado, em vão. Como meu cérebro mantinha-se claro como o gelo em manhãs de geada, compreendi que estava sendo dopado.
*
Quando recobrei a consciência, estava esparramado no sofá. Sentei-me, meti a cabeça explodindo de dor – um latejar profundo em nada comparável à ressaca – entre as mãos e naquele momento ouvi um som lamentoso espalhando-se pela casa.
Pus-me de pé, cambaleante segui as ondas do lamento e dei-me com a câmara misteriosa. Um medo irracional por alguns instantes paralisou-me os membros e, patético, fiquei olhando a rica cortina do cômodo – dali não mais emanavam os miasmas de horas antes, mas pressentimentos funestos, presságios terrificantes, agouros lúgubres.
Abri a cortina e entrei. O lugar, iluminado pelo sol vespertino, tinha nas paredes, acomodadas em prateleiras, esculturas de todos os tamanhos e cinzeladas nas mais estranhas conformações. Ao centro do quarto via-se um bloco maciço de mármore, quadrado, com uns dois metros de largura por um de altura – sobre ele o meu filho, nu, distendido de costas e aparentemente dopado. Junto ao bloco, sentada em posição de ioga e de frente para o sol, estava Felênia, os olhos fechados, murmurando aquele mantra soturno, gutural, tétrico. Tinha as mãos postas em frente ao peito e, entre elas, um punhal – o cabo era feito de polidas pedras brancas e negras, formando mosaicos, e a lâmina, comprida e fina, era de sílex.

Tremendo de pânico, peguei o menino nos braços e corri para o veículo de Felênia – deixando-a naquele estado de transe a entoar sua cantilena maldita. Acomodei o garoto no banco da frente, a cabeça sobre minhas pernas, profundamente aliviado ao ouvir seus lamentos sinalizando a recuperação dos sentidos. Então, após girar a chave na ignição, observei que no peito do Juninho havia um círculo de tinta quase da tonalidade da pele demarcando o lugar exato do coração.

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