E foi assim que Felênia entrou em minha vida. Não saberia
determinar-lhe a idade. O corpo era anguloso, seco e, durante o sexo, frenético
e jovialmente cônscio das infinitas possibilidades do prazer – mas a pele do
rosto era cansada, como que torturada anos e anos pelo abuso de maquilagem; ao
redor dos imensos olhos negros via-se uma cordilheira de rugas minúsculas e os
dentes tinham o esmalte amarelecido, de gente que mastiga há uma eternidade
alegrias, alimentos e decepções.
Não tinha dia certo para vir ao meu apartamento, e muito menos
horário. Às vezes chegava às duas da madrugada, às oito da manhã, em qualquer
momento nos meus dias de folga – sem nenhum aviso prévio. Tão inconstante,
acabei dando-lhe uma duplicata da chave de minha morada. Apesar do convívio, eu
nada sabia dela e nem a fórceps conseguiria arrancar-lhe confissões da vida
pregressa. Uma mortalha envolvia seu passado e um véu o presente. Algumas
manias de Felênia me irritavam profundamente. Uma delas: ficava horas seguidas
sentada no chão em posição de ioga, os olhos perdidos sabe-se lá em que labirintos
esotéricos, entoando mantras – um sussurro intermitente, agourento, rouco,
assustador. Após, sorria para si mesma e dizia: A teus pés deposito minha alma,
ó Mestre! – e seus olhos esbugalhavam-se, a cabeça girava lentamente em ângulos
absurdos, como se perseguisse a luz fascinante de alguma miragem. Quando
finalmente punha-se de pé, eu já nem fazia perguntas – sabia a resposta:
Felênia acabara de entrar em contato com algum sacerdote, imperador, sei lá,
alguma divindade de uma das civilizações pré-colombianas.
*
Numa manhã de domingo ensolarado, Cleide, minha ex-esposa,
trouxe muito a contragosto nosso garoto de 10 anos, Juninho, para passar o dia
comigo. Nem se dignou a ultrapassar o limiar da porta.
– Quero-o de volta às seis da tarde – disse-me, num
autoritarismo ressentido. Virou-se e foi embora. Felênia em pouco estava na
sala, querendo saber de quem nos visitava. Apresentei-a ao garoto. A simpatia
de Felênia foi imediata: abraçou-o com ardor, sem ligar importância ao
constrangimento do menino. Beijou-lhe as faces sardentas, penteou-lhe os
cabelos com os dedos.
– Puxa, como você é forte! – exclamou. – Tire a camisa querido –
pediu em seguida. Como o guri permanecesse atônito, ela mesma o desvencilhou da
camiseta com a estampa do Batman e apalpou-lhe o tórax saudável.
– Você está com fome? – indagou. Não esperou pela resposta: –
Vou lhe fazer um desjejum digno dos deuses! – exclamou.
– Já tomei o café da manhã – murmurou o guri.
– Não tem importância. O meu é especial. Vai ver. – E sem mais
aquela retornou à cozinha. Juninho sorriu-me e disse, quase a medo: – Que dona
mais maluca!
*
Após o café, Felênia já tinha seduzido o garoto com as histórias
mirabolantes saídas de sua mente extraordinariamente fértil. O clímax da
conquista foi atingido quando nos convidou para visitarmos sua chácara, a uns
trinta quilômetros da cidade.
– Possui uma chácara? – perguntei, apenas para certificar-me de
que ouvia direito.
– Oh, é uma coisa pequenina – disse ela. – Mas há tantas opções
de lazer! – completou, empolgada. Eu também fiquei entusiasmado, era uma fresta
que se abria no casulo de seu misterioso viver.
*
Fomos à chácara no veículo utilitário de Felênia, estacionado
nas proximidades do meu apartamento. E eu sequer sabia que ela soubesse
guiar... quanto mais possuir um carro!
Na propriedade campestre havia um lago piscoso, recoberto
parcialmente por lírios d'água – em pontos estratégicos da orla, em meio aos
arbustos, viam-se esculturas em diversos tamanhos de estranhos ídolos de alguma
época perdida no tempo, trabalhos feitos por Felênia, naturalmente. Além da
orla, um viveiro com alguns macaquinhos. O que chamou a atenção do garoto, no
entanto, foram os animais domésticos – todos em miniatura. Vacas com 90
centímetros de altura, cavalinhos que, à distância, pareciam-se com cabritos.
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