quarta-feira, 17 de julho de 2013

A Câmara de Sacrifícios-J.Athayde Paula (Parte 2)

Certa madrugada eu acabava de preparar algo para comer – um ovo frito, três salsichas, uma fatia de queijo e um pedaço de pão bisnaga – quando a campainha tocou. Não atinava quem poderia estar à minha porta às três da manhã – e Felênia, depois da publicação dos poemas, muito menos. Trajando a mesma vestimenta da tarde do dilúvio, calma, segura, imperturbável, Felênia adentrou o apartamento e lançou-se no sofá. Sorriu de meu ar desconcertado, remexeu em sua grande bolsa de palha e dela retirou uma barra de chocolate. Pôs-se a comer e entre um e outro mastigar, disse:
– Que bom que você tem um gato. Gosto desse bicho.
– Gato? Que gato? – indaguei. Entre ficar furioso ou boquiaberto, tomei fôlego, dirigi-lhe um olhar piedoso e voltei a perguntar: – Em que lugar você está vendo um gato?
– No quarto. Não ouve? Ele está brincando com um pé de meia. Não ouve o barulho?
– Barulho? Barulho de uma meia sendo arrastada no assoalho?

A mulher estava me gozando, só podia.– Exatamente – ela confirmou. Tudo era absurdo. Eu odiava gatos desde que um deles comera meus peixinhos ornamentais amazônicos, isso quando tinha seis anos de idade.
– Aliás – completou Felênia –, o bichano está brincando com a meia em cima do tapete, ao lado da cama.
Mais para ter certeza de que aquela mulher estava se divertindo às minhas custas, fui ao quarto verificar – sobre o tapete um gatinho felpudo, amarelo, preto e cinza, dava cambalhotas esfiapando a meia. Um bichano desse tamaninho. Peguei o animal e voltei à sala. Só havia uma explicação para aquilo: a mulher trouxera o felino e, não sei como, introduzira-o no quarto.
– Toma seu bicho e não brinque mais assim – disse.
– Ele não é meu – retrucou Felênia. Pegou o gatinho, acarinhou-lhe a cabeça e voltou a soltá-lo. O filhote embarafustou-se por entre os móveis, em saltitante corrida, atrás de um inseto noturno.
– Eu não gostei da apresentação que você fez dos meus poemas – disse, tirando da bolsa a página do jornal. Depois acrescentou: – Além do mais, você os publicou numa letra muito miudinha.
Eu nada disse. Ora, não tinha que dar nenhuma satisfação àquela ingrata! Felênia ficou um instante pensativa, a seguir fez um trejeito labial de desprezo.
– Mas não tem importância, minha fase poética já passou. Agora sou pintora e mês que vem talvez me dedique à escultura.
Cravando-me aqueles flamejantes olhos negros, jogou a folha do jornal no meio da sala. Então, surpreendentemente, começou a tirar a roupa. Primeiro a blusa marrom, depois a saia colorida.
– Venha, convidou-me, enquanto arqueava os quadris para facilitar a remoção da calcinha.

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