Certa madrugada eu acabava de preparar algo para comer – um ovo
frito, três salsichas, uma fatia de queijo e um pedaço de pão bisnaga – quando
a campainha tocou. Não atinava quem poderia estar à minha porta às três da
manhã – e Felênia, depois da publicação dos poemas, muito menos. Trajando a
mesma vestimenta da tarde do dilúvio, calma, segura, imperturbável, Felênia
adentrou o apartamento e lançou-se no sofá. Sorriu de meu ar desconcertado,
remexeu em sua grande bolsa de palha e dela retirou uma barra de chocolate.
Pôs-se a comer e entre um e outro mastigar, disse:
– Que bom que você tem um gato. Gosto desse bicho.
– No quarto. Não ouve? Ele está brincando com um pé de meia. Não
ouve o barulho?
– Barulho? Barulho de uma meia sendo arrastada no assoalho?
A mulher estava me gozando, só podia. – Exatamente – ela confirmou. Tudo era absurdo. Eu odiava gatos
desde que um deles comera meus peixinhos ornamentais amazônicos, isso quando
tinha seis anos de idade.
– Aliás – completou Felênia –, o bichano está brincando com a
meia em cima do tapete, ao lado da cama.
Mais para ter certeza de que aquela mulher estava se divertindo
às minhas custas, fui ao quarto verificar – sobre o tapete um gatinho felpudo,
amarelo, preto e cinza, dava cambalhotas esfiapando a meia. Um bichano desse
tamaninho. Peguei o animal e voltei à sala. Só havia uma explicação para
aquilo: a mulher trouxera o felino e, não sei como, introduzira-o no quarto.
– Toma seu bicho e não brinque mais assim – disse.
– Ele não é meu – retrucou Felênia. Pegou o gatinho,
acarinhou-lhe a cabeça e voltou a soltá-lo. O filhote embarafustou-se por entre
os móveis, em saltitante corrida, atrás de um inseto noturno.
– Eu não gostei da apresentação que você fez dos meus poemas –
disse, tirando da bolsa a página do jornal. Depois acrescentou: – Além do mais,
você os publicou numa letra muito miudinha.
Eu nada disse. Ora, não tinha que dar nenhuma satisfação àquela
ingrata! Felênia ficou um instante pensativa, a seguir fez um trejeito labial
de desprezo.
– Mas não tem importância, minha fase poética já passou. Agora
sou pintora e mês que vem talvez me dedique à escultura.
Cravando-me aqueles flamejantes olhos negros, jogou a folha do
jornal no meio da sala. Então, surpreendentemente, começou a tirar a roupa.
Primeiro a blusa marrom, depois a saia colorida.
– Venha, convidou-me, enquanto arqueava os quadris para
facilitar a remoção da calcinha.
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