terça-feira, 16 de julho de 2013

A câmara de sacrifícios- J.Athayde Paula (Parte 1)

Aconteceu em 1987. Numa sexta-feira de março a mulher apareceu na redação por volta das 17 horas, completamente encharcada. Lá fora despencava uma chuva tão intensa que dava para se ouvir o roncar da enxurrada subindo pelo meio-fio, digladiando-se com as rodas dos carros estacionados, mordendo postes e árvores. Cinco da tarde e tão furioso temporal dava a impressão de já ser noite.
Ela parou em frente de Mônica, a editora-chefe do caderno de cultura e, sem se sentar na cadeira oferecida, abriu uma pasta de couro e dela sacou algumas folhas.
– Poemas – disse.
– Poemas... sei... – murmurou Mônica, pegando os papéis que lhe eram estendidos. Passou um rápido olhar nos trabalhos e indicou-me, editor-adjunto.
A mulher veio em minha direção. Os cabelos, talvez louros, grudavam-se no crânio ovalado e gotejavam em suas faces de ossatura proeminente; os imensos olhos negros pareciam um fumegante lago de lava – uma incandescência que chegava a incomodar. Trajava-se com uma blusinha marrom comprimindo os seios incipientes e uma saia selvagem, longa e rodada, cheia de babados e totalmente coberta de desenhos geométricos berrantemente coloridos.
Jogou as páginas sobre a escrivaninha e com um suspiro impaciente sentou-se na cadeira. Esperei que dissesse alguma coisa – só o silêncio de seus negros e penetrantes olhos de fogo falou. Fingi que lia os poemas – enquanto isso aqueles malditos olhos perfuravam-me a carne e espírito: eu estava singularmente perturbado.
– Pode deixá-los aqui para melhor analisá-los?
– Está bem – disse – e estendeu-me uma mão úmida e gelada, levantou-se e se foi – sem um sorriso nos lábios, uma ternura agradecida nos grandes olhos negros. Sim, ternura agradecida: raramente analisávamos e publicávamos poemas, mesmo de autores conhecidos, apesar de termos uma página dedicada à literatura; poderia tê-la despachado sumariamente com sua papelada. Através da vidraça vi-a afundar-se no aguaceiro que caía lá fora. Ficou dela uma sensação de savanas abrasivas, vulcões ativos de ilhas desérticas.
Não sei quanto tempo permaneci extático, fitando a chuva. Tirou-me daquela imobilidade hipnótica o nosso diagramador: era preciso diminuir o título de um artigo. Um tanto contrariado – estava mergulhado num estado mental tão mágico! – fiz o que o rapaz pedia e, depois, tentei retomar as rédeas do fascínio. Em vão. Tudo se fora. Reintegrado à realidade, resolvi ler os poemas: falavam de civilizações pré-colombianas, não sei se Asteca, Maia ou Inca – talvez de todas elas, numa mistura monumental. Uns poemas esquisitos, alguns incompreensíveis. Até o nome da autora era estranho: Felênia. Simplesmente Felênia, sem sobrenome. Bem, o fato é que já decidira pela publicação. Restava convencer Mônica. Olhei-a, ali em sua mesa, e me surpreendi de que não estivesse concentrada no trabalho. Fitava-me, uma ruga formando-se entre as sobrancelhas. Mônica tinha 45 anos, a mesma idade que eu, e fora responsável, ainda que indiretamente, pela dissolução de meu casamento: fôramos amantes e eu, tão apaixonado, divorciei-me pensando em nova união; não deu certo – o encanto de nosso relacionamento estava justamente no adultério. Peguei três poemas da tal Felênia e fui ter com Mônica.

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