segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Ingratidão da Realeza - Fellype Souza ( parte 2, final)

Desfiz-me da fantasia e coloquei os trajes de dormir. Na esperança de uma noite diferente da passada.  Eu dormia superficialmente, imagens do baile na cabeça se misturavam com cenas da noite passada. E um terrível som que eu não esperava e nem queria ouvir, soou com toda sua tenebrosa freqüência. Levantei-me rapidamente em um salto da cama e tudo se repetia como noite passada. Ao sair do quarto percebi que dessa feita o relógio tinha despertado mais cedo. Eram onze horas da noite, mas a brisa gélida era como a de três da manha.
Ouvi um miado esganiçado e isso me fez paralisar de medo. Fiquei um tempo recostado na parede até que recobrei as forças, para poder continuar a andar, estava com muito medo, mais como falei anteriormente uma força maior parecia me guiar e me empurrar para o lugar que eu deveria estar.
   Lá estava eu de novo de fronte ao corredor dos vigias, e a porta estava entre aberta. Eu não queria entrar, mas a curiosidade me empurrava em direção à porta enquanto me aproximava, os gemidos de gato aumentavam, parecia estarem esfolando o maldito bichano.
   Ao me aproximar os mios diminuíam, com muito medo e as pernas tremendo, olhei pela fresta da porta. Vi o vigia deitado sobre uma mesa e uma poça de sangue que se formou embaixo da mesma. Apesar das evidencias de um assassinato o vigia não aparentava estar ferido.
   Encostada na parede do lado de fora uma pá. Foi o que encontrei para me sentir seguro. O que tivesse lá dentro poderia ser morto a “pasadas”, ao menos assim imaginava eu.
   Abri mais ainda a porta com a pá acima do ombro pronta para ser desferida em golpes. Foi quando pude ver o maldito assassino, as provas eram incontestáveis, sua boca estava lambuzada de sangue ele parecia estar ainda saboreando sangue fresco. Seus olhos vermelhos cintilavam as chamas das tochas do armazém, e ainda preso a sua boca, estava o broche de rubi que mais cedo tinha sido entregue ao defunto. Era assustador. Um maldito gato albino miava ao lado do vigia. Ouvi um chamado vindo de dentro do armazém, foi quando o bichano pulou em meu rosto com um peçonhento mio. Minha reação foi imediata Desci então a pá dos ombros atingindo o gato que caiu desacordado ao chão.
   O pulo do bichano fez o corpo rolar da mesa e cair de Bruços ao chão. O que me horrorizou ainda mais. O bichano teria devorado as costas do vigia, um enorme buraco, com vísceras à mostra me fizeram ensaiar um vômito este interrompido por minhas mãos.
   - Como inteligentes  são os bichados? Matar por riquezas. Ou será por comida?  Vamos me diga. Responda Conde Stein.
Uma voz calma e conhecida me perturbou com sua presença àquela hora da noite e naquele lugar. Ensaiei falar algo. Mas fui interrompido
   -Sim Conde Stein sou eu. Conde Mormom.
   Dessa vez a voz estava mais próxima. Uma sombra se projetava em minha frente. Nesse momento um frio contraiu meu estômago e por instantes paralisou meus músculos. A boca do      Conde Mormom estava igual a do bichano cheia de sangue, isso me incomodava, e me fez tentar se afastar, mas minhas pernas ainda estavam meio travadas.
   - Ora! Para que vigias se gatos trabalham tão bem.
   -Foi você. Você matou o vigia. O seu vigia.
   -Ah... Esqueci-me de te avisar que isso era um mau de família.
   -Meu caro Stein, de nada me serviria um castelo se este não fosse amaldiçoado.
   -Como assim? Do que você está falando?
   Agora o medo me assombrava até mais que a morte.
   -Não me faça ter que repetir a história. Conde Stein. Mas como o senhor é meu convidado de honra, vou resumir a maldição que paira sobre essa propriedade.
   Em 1500 o verdadeiro dono desse castelo, Príncipe William, me deu-o de bom grado. Eu como um nobre falido aceitei. Mas ele me daria com uma condição. Antes que você pergunte. Eu teria que matar o vigia, em uma noite de sexta feira 13. E assim fiz.
   O que o maldito não me falou era que após entrar eu jamais poderia sair. Sim verdade! E para sobreviver teria que matar todas as sextas feiras 13 o meu próprio vigia. Pode isso? (risos)
   Eu sabia que seria difícil encontrar alguém que aceitasse o meu castelo de bom grado, e que em troca matasse meu criado não é?
   Então pesquisei e consultei bruxas, e elas me disseram que a ingratidão de um nobre me permitiria transferir a maldição. Se um dia um nobre entrasse no castelo eu só precisaria de um motivo para que ele fosse ingrato comigo, então pedi a uma curandeira que pusesse o feitiço nas portas do meu quarto. Ora quanta desonrra seria entrar num quarto de um nobre sem ser convidado. Se eu conseguisse fazer com que um tolo se atrevesse a entrar sem permissão em meu quarto eu poderia transferir a maldição. O que tem sido difícil, por que a nobreza antiga era muito respeitadora, embora não possa dizer o mesmo da  atual.
   Pelo que me consta senhor Stein, vossa senhoria se deitou com minha mulher. Não foi? Que indelicadeza de sua parte. Não é da nobreza a ingratidão. Mas antes eu do que minha falecida esposa. Eu não te contei? Eu a matei. (risos)
   Eu só preciso te manter aqui até a meia noite.
   - Eu juro Conde, não é de minha sina esse tipo de comportamento. Mas é que vossa esposa me tirou do sério. E...
   -Ora, que feio por culpa em uma dama senhor Stein. Além disso, não faz mal, serei livre graças a ela.
   - Como assim?
   - Ora, terei que desenhar para que o senhor entenda senhor Stein.
   - O medo tomou conta de mim, e aumentou ainda mais quando vi o maldito gato se levantar, e começar a acariciar seu dono.
   - Ele pode ser seu quando eu sair daqui tá?
   - Eu não quero gato nenhum.
   - Você não vai sair daqui senhor Stein.
   - Um pulso de energia me fez ficar rapidamente de pé o que fez o Conde se virar e ordenar o gato.
   O bichano voou em minha direção com seus olhos vermelhos e seus dentes pontiagudos. Outra vez o golpeei com a pá e ele voou na direção do Conde, encravando suas garras no mesmo.
   Com isso, sai correndo em busca desesperada de uma saída. Uma segunda perseguição em menos de um dia. O Conde corria louco, com o bichano ao seu pé, aquele vulto brando na escuridão.
Estava próxima a saída e dois serviçais me esperavam no hall de entrada.
   -Peguem-no. Ordenava o Conde.
   Os dois musculosos serviçais corriam em minha direção, a menos de um metro deles saltei entre os dois e eles colidiram de testa. Já quase na saída o maldito gato voou em meu tornozelo e me derrubou. O conde tomou minha frente.
   -Você não pode sair garoto.
   Uma idéia ocorreu. Empurrar para fora do castelo quem jamais poderia sair. Isso poderia libertá-lo e me aprisionar, mas mesmo assim o fiz. Ele relutou enquanto caía escada abaixo. Enquanto rolava, seu corpo começou a incinerar. Por alguns instantes seu corpo ficou suspenso até que fosse consumido instantaneamente por uma chama azulada, seu corpo relutava, mas estranhamente ele se despediu com um leve sorriso.
   O gato parou de me puxar e prender minhas pernas. Levantei-me e saí do castelo em um pulo. Ainda com vestes de dormir, fiquei parado ouvindo o badalar da maia noite e os mios tenebrosos do maldito gato albino.

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