Desfiz-me da fantasia e coloquei os trajes de
dormir. Na esperança de uma noite diferente da passada. Eu dormia
superficialmente, imagens do baile na cabeça se misturavam com cenas da
noite passada. E um terrível som que eu não esperava e nem queria ouvir,
soou com toda sua tenebrosa freqüência. Levantei-me rapidamente em um
salto da cama e tudo se repetia como noite passada. Ao sair do quarto
percebi que dessa feita o relógio tinha despertado mais cedo. Eram onze
horas da noite, mas a brisa gélida era como a de três da manha.
Ouvi um miado esganiçado e isso me fez paralisar de medo. Fiquei um
tempo recostado na parede até que recobrei as forças, para poder
continuar a andar, estava com muito medo, mais como falei anteriormente
uma força maior parecia me guiar e me empurrar para o lugar que eu
deveria estar.
Lá estava eu de novo de fronte ao corredor dos vigias, e a porta
estava entre aberta. Eu não queria entrar, mas a curiosidade me
empurrava em direção à porta enquanto me aproximava, os gemidos de gato
aumentavam, parecia estarem esfolando o maldito bichano.
Ao me aproximar os mios diminuíam, com muito medo e as pernas
tremendo, olhei pela fresta da porta. Vi o vigia deitado sobre uma mesa e
uma poça de sangue que se formou embaixo da mesma. Apesar das
evidencias de um assassinato o vigia não aparentava estar ferido.
Encostada na parede do lado de fora uma pá. Foi o que encontrei para
me sentir seguro. O que tivesse lá dentro poderia ser morto a
“pasadas”, ao menos assim imaginava eu.
Abri mais ainda a porta com a pá acima do ombro pronta para ser
desferida em golpes. Foi quando pude ver o maldito assassino, as provas
eram incontestáveis, sua boca estava lambuzada de sangue ele parecia
estar ainda saboreando sangue fresco. Seus olhos vermelhos cintilavam as
chamas das tochas do armazém, e ainda preso a sua boca, estava o broche
de rubi que mais cedo tinha sido entregue ao defunto. Era assustador.
Um maldito gato albino miava ao lado do vigia. Ouvi um chamado vindo de
dentro do armazém, foi quando o bichano pulou em meu rosto com um
peçonhento mio. Minha reação foi imediata Desci então a pá dos ombros
atingindo o gato que caiu desacordado ao chão.
O pulo do bichano fez o corpo rolar da mesa e cair de Bruços ao
chão. O que me horrorizou ainda mais. O bichano teria devorado as costas
do vigia, um enorme buraco, com vísceras à mostra me fizeram ensaiar um
vômito este interrompido por minhas mãos.
- Como inteligentes são os bichados? Matar por riquezas. Ou será por comida? Vamos me diga. Responda Conde Stein.
Uma voz calma e conhecida me perturbou com sua presença àquela hora da
noite e naquele lugar. Ensaiei falar algo. Mas fui interrompido
-Sim Conde Stein sou eu. Conde Mormom.
Dessa vez a voz estava mais próxima. Uma sombra se projetava em
minha frente. Nesse momento um frio contraiu meu estômago e por
instantes paralisou meus músculos. A boca do Conde Mormom estava
igual a do bichano cheia de sangue, isso me incomodava, e me fez tentar
se afastar, mas minhas pernas ainda estavam meio travadas.
- Ora! Para que vigias se gatos trabalham tão bem.
-Foi você. Você matou o vigia. O seu vigia.
-Ah... Esqueci-me de te avisar que isso era um mau de família.
-Meu caro Stein, de nada me serviria um castelo se este não fosse amaldiçoado.
-Como assim? Do que você está falando?
Agora o medo me assombrava até mais que a morte.
-Não me faça ter que repetir a história. Conde Stein. Mas como o
senhor é meu convidado de honra, vou resumir a maldição que paira sobre
essa propriedade.
Em 1500 o verdadeiro dono desse castelo, Príncipe William, me deu-o
de bom grado. Eu como um nobre falido aceitei. Mas ele me daria com uma
condição. Antes que você pergunte. Eu teria que matar o vigia, em uma
noite de sexta feira 13. E assim fiz.
O que o maldito não me falou era que após entrar eu jamais poderia
sair. Sim verdade! E para sobreviver teria que matar todas as sextas
feiras 13 o meu próprio vigia. Pode isso? (risos)
Eu sabia que seria difícil encontrar alguém que aceitasse o meu
castelo de bom grado, e que em troca matasse meu criado não é?
Então pesquisei e consultei bruxas, e elas me disseram que a
ingratidão de um nobre me permitiria transferir a maldição. Se um dia um
nobre entrasse no castelo eu só precisaria de um motivo para que ele
fosse ingrato comigo, então pedi a uma curandeira que pusesse o feitiço
nas portas do meu quarto. Ora quanta desonrra seria entrar num quarto de
um nobre sem ser convidado. Se eu conseguisse fazer com que um tolo se
atrevesse a entrar sem permissão em meu quarto eu poderia transferir a
maldição. O que tem sido difícil, por que a nobreza antiga era muito
respeitadora, embora não possa dizer o mesmo da atual.
Pelo que me consta senhor Stein, vossa senhoria se deitou com minha
mulher. Não foi? Que indelicadeza de sua parte. Não é da nobreza a
ingratidão. Mas antes eu do que minha falecida esposa. Eu não te contei?
Eu a matei. (risos)
Eu só preciso te manter aqui até a meia noite.
- Eu juro Conde, não é de minha sina esse tipo de comportamento. Mas é que vossa esposa me tirou do sério. E...
-Ora, que feio por culpa em uma dama senhor Stein. Além disso, não faz mal, serei livre graças a ela.
- Como assim?
- Ora, terei que desenhar para que o senhor entenda senhor Stein.
- O medo tomou conta de mim, e aumentou ainda mais quando vi o maldito gato se levantar, e começar a acariciar seu dono.
- Ele pode ser seu quando eu sair daqui tá?
- Eu não quero gato nenhum.
- Você não vai sair daqui senhor Stein.
- Um pulso de energia me fez ficar rapidamente de pé o que fez o Conde se virar e ordenar o gato.
O bichano voou em minha direção com seus olhos vermelhos e seus
dentes pontiagudos. Outra vez o golpeei com a pá e ele voou na direção
do Conde, encravando suas garras no mesmo.
Com isso, sai correndo em busca desesperada de uma saída. Uma
segunda perseguição em menos de um dia. O Conde corria louco, com o
bichano ao seu pé, aquele vulto brando na escuridão.
Estava próxima a saída e dois serviçais me esperavam no hall de entrada.
-Peguem-no. Ordenava o Conde.
Os dois musculosos serviçais corriam em minha direção, a menos de um
metro deles saltei entre os dois e eles colidiram de testa. Já quase na
saída o maldito gato voou em meu tornozelo e me derrubou. O conde tomou
minha frente.
-Você não pode sair garoto.
Uma idéia ocorreu. Empurrar para fora do castelo quem jamais poderia
sair. Isso poderia libertá-lo e me aprisionar, mas mesmo assim o fiz.
Ele relutou enquanto caía escada abaixo. Enquanto rolava, seu corpo
começou a incinerar. Por alguns instantes seu corpo ficou suspenso até
que fosse consumido instantaneamente por uma chama azulada, seu corpo
relutava, mas estranhamente ele se despediu com um leve sorriso.
O gato parou de me puxar e prender minhas pernas. Levantei-me e saí
do castelo em um pulo. Ainda com vestes de dormir, fiquei parado ouvindo
o badalar da maia noite e os mios tenebrosos do maldito gato albino.
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