Os passos vinham dos fundos da cozinha, perto do fogão. Eu continuava
parado na entrada do recinto e podia ouvi-los vindo em minha direção.
Não havia ninguém ali, estava escuro (era noite), mas era claro que não
havia ninguém ali. E então entendi que a hora havia chegado. A hora do
encontro. O fantasma vinha em minha direção, mas eu não podia vê-lo,
somente ouvi-lo. Não era mais senhor do meu corpo e me mantinha
congelado, enquanto os passos chegavam mais perto. Passaram pela mesa de
jantar e então chegaram até mim. Fechei os olhos e eles pararam. Não
ousei abrir os olhos e prendi a respiração. A menos de um metro de mim,
estava a porta do quarto de minha mãe. Pensei que poderia entrar lá se
fosse rápido. Bastariam dois movimentos, girar a maçaneta e saltar
quarto adentro. Mas quando comecei a sentir novamente minhas pernas, os
passos recomeçaram. Eles passaram por mim e pude sentir o frio da morte,
o frio do inexplicável, o frio do que já não possuía calor, pude sentir
o coração apertar e então abri os olhos.
Virei-me e pude ouvir os passos seguirem em frente. Por um momento,
jurei ver as marcas das pegadas no piso ladrilhado. Mas era apenas a
minha imaginação. Mas os passos não, aqueles passos eram reais. Eles
continuavam sua caminhada, um após o outro, e eu sabia para onde eles
estavam indo. Passaram pela sala e pela estante de livros, passaram pelo
sofá e então entraram em meu quarto. O fantasma foi sutil o suficiente
para fechar a porta.
Fiquei ali parado alguns minutos, mas minutos que pareceram horas.
Retomei a consciência e tomei a decisão mais sensata. Entrei no quarto
de minha mãe, bati em seu ombro e quando ela acordou, consegui falar com
o fiapo de voz que me restava:
- Posso dormir aqui com você mãezinha?
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