quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Entidade-Rafael Dias Canhestro(Parte 1)



Meu nome é Roberto. Sou de origem muito simples, um caipira que saiu do interior para tentar a sorte na cidade grande. Não fui bem sucedido, como a maioria. Terminei casado com uma garota que engravidei nos meus primeiros meses como cidadão belorizontino, sendo obrigado a aceitar a primeira proposta de emprego oferecida. Aceitei o cargo de caseiro em uma bela residência na região da pampulha. Uma mansão maravilhosa, algo que eu jamais terei em minha vida. É propriedade de um empresário de renome no país, dono de uma das empresas de autómoveis mais populares que se tem conhecimento. Apesar de sua riqueza, o infeliz me paga um salário minímo, que mau dá para sustentar meu amado filho. O mundo é injusto, mas não reclamo. Sou feliz apesar dos problemas. Não convivo com uma maldição, assim como o meu amável patrão.
 Meu patrão tem uma família com um histórico um tanto trágico. Tinha seis irmãos, dos quais apenas dois estão vivos. Os outros morreram de forma misteriosa. Não foram acometidos por doença, fatalidade, ou até mesmo por alguma ironia do destino, quase sempre zombador conosco, os pobres e frágeis mortais. Simplesmente faleceram, como se tivessem decidido por conta própria. Juro que não se suicidaram. Foram todos encontrados em seus leitos de morte da mesma maneira, com olhos esbugalhados, expressões de puro e inexplicável terror, como se tivessem tido um encontro em particular com o próprio diabo. Mortos de pavor. O que teria lhes assustado tanto? Não faço idéia, mas tenho certa desconfiança. A coisa que lhes tirou a vida parece habitar a velha mansão há muitos anos. Não gosta de visitantes indesejados. Como podem perceber, não costuma tratá-los com o devido carinho.
  Perderam a vida no mesmo dia. Estavam passando férias na mansão, com todo o conforto possível fornecido por meu patrão, um homem bondoso com os de seu sangue. Lembro-me bem da estadia curta daqueles malditos, que não me deixaram dormir por uma noite sequer enquanto aqui permaneceram. Faziam festas até as altas horas, sempre com o som ligado na maior altura, uma barulhada infernal, que seguia sem cessar até o dia amanhecer. Convidavam todo tipo de prostituta para essas confraternizações, mulheres vulgares, o tipo que só serve para dar uma noite de prazer, sendo descartada logo após o uso. Transformaram a propriedade de alto nível em um lugar deplorável, quase em um mótel de beira de estrada em tamanho família. Mesmo assim, o castigo que receberam foi um tanto pesado demais. Detestava aqueles sujeitos, mas nunca desejaria um fim tão trágico para qualquer um deles.
 Trabalho nesse lugar há cinco anos, e já vi muita coisa estranha acontecer por aqui. Tive muito medo no ínicio, mas acabei por me acostumar. O ser humano é capaz de se adaptar a qualquer situação, a perder a sensibilidade diante de atrocidades, fatos anormais. De vez em quando me deparo com cenas um tanto inesperadas, acontecimentos surreais, que em algumas épocas, foram as responsáveis por noites intensas, recheadas de pesadelos. Minha mulher mora comigo na pequena casa de caseiro, que fica apenas há alguns metros da mansão, e pode confirmar sem sombra de dúvidas tudo o que já vivenciei por aqui. Inclusive ela mesma, passou por poucas e boas nesse lugar. Deixou de ter fé inclusive, quando encontrou a sua imagem preferida de Santa Maria jorrando sangue descontroladamente, em jatos fortes, como se a pequena estatueta tivesse alguma artéria perfurada, um coração em seu interior capaz de bombear sangue. Minha amada esposa quase enlouqueceu. Me pediu para irmos embora, mas eu a detive. Não podemos ser livres. Temos a responsabilidade de manter um filho no mundo, e isso custa caro. Estamos atados por um erro do passado, presos nesse inferno, por tempo indeterminado.

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