Meu nome é Roberto. Sou de origem muito simples,
um caipira que saiu do interior para tentar a sorte na cidade grande. Não fui
bem sucedido, como a maioria. Terminei casado com uma garota que engravidei nos
meus primeiros meses como cidadão belorizontino, sendo obrigado a aceitar a
primeira proposta de emprego oferecida. Aceitei o cargo de caseiro em uma bela
residência na região da pampulha. Uma mansão maravilhosa, algo que eu jamais
terei em minha vida. É propriedade de um empresário de renome no país, dono de
uma das empresas de autómoveis mais populares que se tem conhecimento. Apesar
de sua riqueza, o infeliz me paga um salário minímo, que mau dá para sustentar
meu amado filho. O mundo é injusto, mas não reclamo. Sou feliz apesar dos
problemas. Não convivo com uma maldição, assim como o meu amável patrão.
Meu patrão tem uma família com um histórico
um tanto trágico. Tinha seis irmãos, dos quais apenas dois estão vivos. Os
outros morreram de forma misteriosa. Não foram acometidos por doença,
fatalidade, ou até mesmo por alguma ironia do destino, quase sempre zombador
conosco, os pobres e frágeis mortais. Simplesmente faleceram, como se tivessem
decidido por conta própria. Juro que não se suicidaram. Foram todos encontrados
em seus leitos de morte da mesma maneira, com olhos esbugalhados, expressões de
puro e inexplicável terror, como se tivessem tido um encontro em particular com
o próprio diabo. Mortos de pavor. O que teria lhes assustado tanto? Não faço
idéia, mas tenho certa desconfiança. A coisa que lhes tirou a vida parece
habitar a velha mansão há muitos anos. Não gosta de visitantes indesejados.
Como podem perceber, não costuma tratá-los com o devido carinho.
Perderam a vida no mesmo dia. Estavam
passando férias na mansão, com todo o conforto possível fornecido por meu
patrão, um homem bondoso com os de seu sangue. Lembro-me bem da estadia curta
daqueles malditos, que não me deixaram dormir por uma noite
sequer enquanto aqui permaneceram. Faziam festas até as altas horas,
sempre com o som ligado na maior altura, uma barulhada infernal, que seguia sem
cessar até o dia amanhecer. Convidavam todo tipo de prostituta para essas
confraternizações, mulheres vulgares, o tipo que só serve para dar uma noite de
prazer, sendo descartada logo após o uso. Transformaram a propriedade de alto
nível em um lugar deplorável, quase em um mótel de beira de estrada em tamanho
família. Mesmo assim, o castigo que receberam foi um tanto pesado demais.
Detestava aqueles sujeitos, mas nunca desejaria um fim tão trágico para
qualquer um deles.
Trabalho nesse lugar há cinco anos, e já vi
muita coisa estranha acontecer por aqui. Tive muito medo no ínicio, mas acabei
por me acostumar. O ser humano é capaz de se adaptar a qualquer situação, a
perder a sensibilidade diante de atrocidades, fatos anormais. De vez em quando
me deparo com cenas um tanto inesperadas, acontecimentos surreais, que em
algumas épocas, foram as responsáveis por noites intensas, recheadas de
pesadelos. Minha mulher mora comigo na pequena casa de caseiro, que fica apenas
há alguns metros da mansão, e pode confirmar sem sombra de dúvidas tudo o que
já vivenciei por aqui. Inclusive ela mesma, passou por poucas e boas nesse
lugar. Deixou de ter fé inclusive, quando encontrou a sua imagem preferida de
Santa Maria jorrando sangue descontroladamente, em jatos fortes, como se a
pequena estatueta tivesse alguma artéria perfurada, um coração em seu interior
capaz de bombear sangue. Minha amada esposa quase enlouqueceu. Me pediu para
irmos embora, mas eu a detive. Não podemos ser livres. Temos a responsabilidade
de manter um filho no mundo, e isso custa caro. Estamos atados por um erro do
passado, presos nesse inferno, por tempo indeterminado.
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