Lá vinha mais um deles. Seco, pálido e sem vida. Em farrapos. Uma
múmia rastejante, um recipiente vazio. Maldita hora de se viajar em um
bosque deserto. Onde estava com a cabeça?! Viajar de madrugada.
Mais um vinha do lado esquerdo e tinha certeza que mais virão. Sorte que eram lentos.
- Merda- falou Saulo bem baixinho.
Ajustou a armadura. Pesada e desajeitada, mas necessária contra as
garras afiadas dos zumbis. Precisava proteger o cavalo, era seu único
meio de transporte.
Barulhos e olhos vermelhos que o olhavam avidamente. Eram vários. Uns vinte pelo menos. Todos famintos. Desembainhou a espada.
- Venham malditos... VENHAM!
Avançou antes que fechassem o cerco. Fixou os olhos em uma mulher.
Primeira! Fincou-lhe a espada no abdômen. O sangue pútrido e negro como
piche escorreu. Mas não era o suficiente. Tinha que cortar a cabeça.
Sentiu movimentos atrás de si.
Esticou o braço que segurava a espada e virou 360 graus. Cabeças
rolaram. Umas cinco pelo menos. O ar se tornara insuportavelmente
fétido. Viu uma garotinha que vinha ávida a encontro de sua perna. Olhou
para ela por um segundo. Dois segundos. Três segundos. O rosto da
criança era desprovido de emoções. Deixou uma lagrima escorrer-lhe pela
face e então desceu a espada da cabeça às pernas e depois lhe cortou a
cabeça.
Sentiu uma forte dor no tornozelo direito. Unhas que adentravam sua
carne com facilidade sobrenatural. Olhou para o lado e viu um corpo sem
cabeça que agarrava seu pé. Cortou-lhe a mão. A hesitação em um momento
daqueles era a pior saída. No ímpeto de abaixar, uma mão passou em falso
por sua cabeça.
De reflexo rápido, logo Saulo acertou em cheio o abdômen da criatura e depois, decepou-lhe a cabeça.
Faltavam três. Últimos três.
Seguiu decidido a eles. Correu ao tronco da arvore, deu impulso com o
pé direito e pulo por cima de um deles, arrancando-lhe a cabeça.
Caiu estatelado e logo sentiu mãos por cima da armadura. Virou-se e
com os pés, jogou um deles para trás enquanto fincava a espada na cabeça
do outro. O sangue podre lavou-lhe a cara.
Determinado em acabar com aquilo logo. Levantou-se e correu ao outro ainda cambaleante. Fatiou-lhe a cabeça com extrema fúria.
- MALDITO, MALDITO, MALDITOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
Caiu no chão chorando. Virou-se do lado e vomitou. O cheiro era insuportável. Por sorte o cavalo estava bem.
Levantou limpando a cara nojenta e afastando as mechas loiras e ensangüentadas dos olhos.
Mas o acontecimento só lhe causara mais fúria, mais sentimento de
vingança! Mataria a maldita bruxa que amaldiçoara os virgens, que os
transformara em zumbis! Que fizeram com que, a menos de cinco minutos,
tivesse que esquartejar sua pobre e doce filha.
- MALDITAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA MALDIITAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Naquela noite, os gritos de Saulo povoaram os bosques. Transmitiam
todo sua fúria. Transmitiam o futuro. Transmitiam a morte de uma bruxa.
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